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Nossa Julie. Foto de Caren Harayama

Recentemente, quando soube que uma ciclista teria sido morta, atropelada por um ônibus na Paulista, pensei: “porra, mais uma morte por causa desse trânsito de merda! Mais uma que vira apenas estatística e saco de pancada das críticas de um bando de motoristas que só sabem pensar no umbigo”. Mas, no final da tarde descubro que era uma amiga. Juliana Dias, nossa Julie. E demorei para acreditar. Fuçava a web, mandava mensagens para amigos em comum. A ficha não caia. E tem vezes, em que sinto que não caiu ainda, talvez numa esperança de encontrar Julie em um próximo encontro de amigos. Mas a razão dizia que era ela mais uma vítima de um assassino.

Não lembro exatamente como a conheci. Provavelmente foi em algum evento ligado ao pessoal que frequenta a Bicicletada ou da Ciclocidade. Uma festa, talvez? Realmente, a ocasião não me vem à cabeça agora. Mas lembro de uma conversa que tivemos durante uma edição do Mão na Roda. Falávamos de nossas origens e sobre comida. Foi quando descobri que Julie era uma caipira, mais precisamente, de São José dos Campos. E desandamos a falar da cozinha da região do Vale do Paraíba: de farofas de içás, doces típicos, bolinho caipira e de outra delícias que não encontramos na cidade de São Paulo.

Sua marca registrada era o sorriso. Ok, talvez seja um clichê dizer isso, mas era exatamente o que me vem à cabeça ao ouvir seu nome. Era uma garota que tinha uma alegria irrestrita, contagiante e era difícil ficar indiferente ao seu lado. E foi assim a última vez que a encontrei. Era um piquenique, onde trocávamos sementes e mudas. E lembro, claramente, dela dizendo que seus pais queriam fazer uma horta, em São José dos Campos. Ofereci algumas sementes de tomates e manjericão. Conversamos sobre os tratos dessas culturas e como fazer com que um jardim se tornasse parte de nossa despensa. Ouviu atentamente meu papo, às vezes chato, sobre segurança alimentar e como as indústrias de alimentos e química estavam nos deixando doentes. Mas também falamos de árvores, de receitinhas e ingredientes. Nosso último encontro foi gostoso, bem a cara dela: cheia de amigos e risadas.

Julie, em nosso último piquenique. Foto de Daniela Cuevas

Toda vez que nos encontrávamos, Julie sempre dizia que devíamos fazer um jantar na casa dela, convidar alguns amigos e jogar papo fora. E eu sempre dizia que iríamos fazer isso, que deveríamos marcar um dia. E assim foi indo: um dia a gente faz, um dia a gente faz. Mas nunca marcávamos. Desculpe, Julie. Acabamos não cozinhando tal jantar. Não chamamos os amigos. Não jogamos papo fora. E também não tive a oportunidade de ir para o Vale do Paraíba, ver a hortinha de seus pais.

E dedico essa receita de bolinho caipira, prato que é patrimônio da cozinha caipira do Vale do Paraíba, à Julie.

Bolinho caipira1

Foto: Juliana Diehl

Bolinho caipira
Ingredientes
Massa
-300 gramas de farinha de milho amarela (daquelas flocadas)
-800 ml caldo de legumes (tem gente que usa água ou caldo de carne)
-2 colheres (sopa) rasas de banha de porco (ou óleo vegetal)
-1 colher de sopa de farinha de mandioca
-uma pitadinha de páprica picante (opcional)
-sal (a gosto)

Recheio
-250 gramas de carne bovina moída (dou preferência por paleta, com bastante gordura)
-1 dente de alho picado (se quiser bem fininho, pode passar no ralador)
-1 cebola média bem picada
-meia xícara (chá) de salsinha picada
-1 pimenta dedo de moça bem picadinha (se quiser menos forte, tire as sementes. Mas aí, qual é a graça?)
-sal e pimenta do reino a gosto

Preparo
-misture a farinha de milho e de mandioca e jogue o caldo de legumes (ou água), fervendo, sobre a mistura.
-mexa com uma colher de pau até ficar morno. A massa vai absorvendo a água e ficando mais pesado para mexer. Força!
-adicione o restante dos ingredientes e comece a sovar a massa. O resultado deve ser uma massa bem lisa e homogênea. Reserve.
-prepare o recheio, misturando todo os ingredientes. Não tem segredos. Meta a mão e mexa com tudo. Ela não é refogada, mas cozida, dentro do bolinho, durante a fritura.
-hora de moldar os bolinhos. Nessa quantidade, dá para fazer 12 bolinhos médios. Divida a massa e o recheio em doze partes.
-abra a massa de forma a ficar redonda. Coloque o recheio no meio e modele o bolinho. O formato deve ser de um kibe de boteco, só que mais estreito.
-a massa tende a ressecar com o tempo. Se começar a rachar enquanto molda os bolinhos, tente manter as mãos molhadas para evitar rachaduras na massa. Se necessário, alise-a com algumas gotas de água.
-frite em óleo quente, mas não exagere. Como o recheio é cru, o bolinho não deve ser frito muito rapidamente. Eu nunca frito por menos do que 2 minutos de cada lado.
-sirva bem quente.

Bolinho caipira2

Foto: Juliana Diehl

9 Responses to “A caipirice de uma ciclista”

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  2. O Onívoro disse:

    Não, Tamar, anda de bicicleta não algo que é empurrado pela mídia ou por algum “think tank”. Pelo contrário, é algo que começou muito de baixo, popular, sem liderança. Se a mídia nos dá espaço agora, foi porque batemos muita cabeça, enfrentamos e protestamos muito. E a Julie fez parte disso tudo.
    Se hoje a bicicleta tem certo prestígio é porque nós dizemos e mostramos que é possível. E vamos continuar essa luta, pelos pobres que pedalam para economizar na condução, pelos que acreditam que podemos ter cidades mais humanas e mais verdes e pelas Márcias e Julies da vida que morreram nesse trânsito de valores tão invertidos, dessa cidade tão desumana.

  3. Tamar disse:

    Fiquei chateada ao vir aqui nesse blog e encontrar este post. Essa menina para mim não tinha um rosto. Agora tem e eu fiquei triste…
    É uma loucura incentivada pela mídia e pelos think thanks obcecados por prestígio esse negócio de colocar gente para andar de bicicleta nas avenidas movimentadas da megalópole como se aqui fosse Paris.

  4. rita disse:

    Me lembrei da conversa com a Ju, lá no Banco: “Ritinha! Acredita que sou bióloga e só aprendi a plantar agora?!” Que saudades….

  5. O Onívoro disse:

    Dna Vitória, ficarei na expectativa de fotos da horta. E, por favor, se houver qualquer dúvida, não hesite em me perguntar. Ajudá-la é o mínimo que posso fazer.
    Todo o carinho que sentimos pela sua filha foi apenas resultado do amor que ela sentia pela vida. Sua joie de vivre foi a verdadeira inspiração para que eu pudesse escrever esse texto.

  6. Vitoria Alice disse:

    Caro Arika,
    Adorei o seu texto. Fiquei muito emocionada, pois me lembro exatamente da Jú me ligando para me falar das sementes que você ofereceu à ela. Ela me disse que você a ensinou até como plantá-las. Infelizmente não deu tempo dela vir plantar comigo… Porém, saiba que, em breve, vou fazer a horta como eu tinha combinado com ela, e aí farei questão de te enviar uma foto para que você veja como ficou.
    Muito obrigada pelo seu carinho com a minha filha…
    Um abraço a você e a todos os seus,
    Vitória Alice Campos Dias, mãe da Julie.

  7. SILVIA N. B. OLIVEIRA disse:

    linda homenagem isaac! emocionante! farei o “bolinho julie”!

    :)

  8. Gilberto Kyono disse:

    :)

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