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Veja a primeira parte I e II do post aqui e aqui.

5. Projetinhos e projetões. Ou como dar um boost na agricultura urbana

Ações em torno da agricultura urbana não faltam no mundo. Estes apenas mostram que produzir alimentos na cidade é possível e muitas vezes, é a melhor solução para um futuro sem fome, sem apelar para as grandes empresas do ramo alimentício e químico (leia-se Nestlé e Monsanto).

Os objetivos principais das ações, projetos e empreendimentos seguintes variam. Alguns buscam melhorar a renda de populações mais pobres e vulneráveis. Outros tem o foco na alimentação e saúde dessas populações, enquanto terceiros nos chamam a atenção para a necessidade de uma mudança de paradigma ambiental em torno da produção de alimentos. Existe ainda aqueles que visam principalmente recuperar áreas urbanas degradadas e abandonadas. Finalmente, há aqueles que querem apenas comer bem, sem os riscos da agricultura industrial. Todos eles com uma idéia em comum: produzir alimentos na cidade.

Na minha opinião, nenhum país foi tão ambicioso e bem sucedido em seu empreendimento de produzir alimentos nas cidades como Cuba. Entre as décadas de 60 e final de 80, a economia da ilha baseava-se numa agricultura de monocultura, produzindo cana de açucar e tabaco e  dependia de petróleo, fertilizantes e pesticidas importados da União Soviética. Além disso, metade de todo o alimento vinha de fora. Com o colapso comunista, Cuba se viu isolada, sem as fontes de combustíveis, insumos agrícolas e comida das décadas anteriores. A fome batia a porta. A solução encontrada foi produzir alimento na cidade, para aproveitar os resíduos domésticos, ao mesmo tempo que economizava com o transporte. Em Havana, podemos encontrar hortas em qualquer quintal ou terreno baldio, muitas vezes, aberta para a comunidade para qualquer um possa trabalhar e produzir alimentos.

Porém, o mais incrível são os organopónicos, verdadeiras fazendas que, além dos vegetais, produzem seus próprios insumos. Fonte de renda para a população, algumas dessas áreas empregam até centenas de pessoas. E usando seu exército de cientistas (com apenas 2% da população das Américas, a ilha detém 12% dos pesquisadores do continente), Cuba tem desenvolvido pesquisas de um agricultura sustentável de alto nível. E muito disso é empregada nos organopónicos. O resultado? 90% das verduras, frutas e legumes consumidos em Havana são produzidos dentro e em volta da cidade. Veja mais sobre organopónicos no vídeo abaixo.

Mais ao norte das Américas, também está bombando de projetos e experiências com agricultura urbana. Um amigo meu recentemente voltou de Nova Iorque e disse que é possível encontrar hortas em qualquer canto da cidade. Aliás, é nessa cidade que encontra um dos melhores restaurantes obcecados com produtos locais, o Blue Hill, e seu irmão, o Blue Hill at Stone Bars, onde os ingredientes saem de um raio de 250 milhas (400 km). Pode parecer muito, pois é a distância entre Rio e São Paulo, mas pense que as pessoas no Sudeste do Brasil comem melões de Mossoró, carne bovina do Pará, arroz do Rio Grande do Sul e soja do Mato Grosso.

Mais a oeste, em Milwaukee, no estado de Wisconsin, está a sede da Growing Power, organização criada pelo ex-jogador de basquete Will Allen, que promove a agricultura sustentável, bem como a recuperação de comunidade em áreas degradadas (e Milwaukee, como parte do Rust Belt, tem sofrido muito com o declínio de sua indústira metalúrgica) através da capacitação para a agricultura urbana. Como grandes estufas e um centro de distribuição de alimentos, o quartel general da organização de Will Allen produz verduras, frutas e legumes, além de criar peixes, abelhas, minhocas, cabras e aves.  Veja mais sobre a organização no vídeo a seguir e no Flickr.

E ainda na mesma região dos Grandes Lagos, pode-se encontrar alguns alguns projetos em Detroit, cidade que tem perdido população e visto bairros inteiros abandonados com a decadência da indústria do automóvel na região.  Nesses lugares, fazendas urbanas podem ser uma forma de revitalizar bairros, reocupar áreas abandonadas e prover sustento para uma população que se viu abandonada tanto pelo poder público quanto pelas grandes corporações. Um exemplo é Greg Willerer, do “Brother Nature Farm”, que começou a produzir alimentos em uma área de meio acre (cerca de 2 000 m2). Para quem mora na cidade, pode parecer muito, mas isso signfica cerca de 0,2 hectare. A título de comparação, minha família tinha uma pequena propriedade em Mogi das Cruzes de 5 hectares. Mas a pequena “Brother Nature” não está sozinha. Willerer, juntamente com outros fazendeiros urbanos, já está se organizando para distribuição e processamento de alimentos, formando algo parecido com uma cooperativa ou sindicato. Mais detalhes da situação de Detroit e agricultura urbana na cidade no vídeo a seguir.

E existe projetos mais ambiciosos como The Urban Farming Guys, onde 20 famílias dos EUA se juntaram para recuperar um bairro de Kansas City, através de aquaponia, hortas, produção de biogás e eles compraram até o prédio de uma escola abandonada para criar um centro comunitário. Os objetivos também não são pequenos: criar empregos para população local, diminuir a criminalidade em um bairro abandonado pelo estado, além de criar um grande laboratório para testar e ensinar técnicas para agricultura urbana. Tudo ainda está no início, mas se der certo, com certeza teremos um excelente exemplo de como agricultura urbana pode recuperar comunidades que sofrem com o descaso do poder público. (veja vídeo abaixo).

Se você leu até aqui, pode-se chegar a conclusão de que isso só possível em cidades com grandes áreas e/ou abandonadas. Mas a agricultura urbana pode ir além do problema do espaço. Aliás, produzir alimentos na cidade sempre foi uma realidade na Ásia, e se (algumas) grandes metrópoles perderam essa vocação, estas estão correndo atrás do prejuízo. Cidades como Tóquio, onde muitos veem nas coberturas dos prédios, possibilidades para produzir verduras, frutas e legumes. Um exemplo é o que está acontecendo na sede da NTT Corp, a principal empresa de telecomunicações do Japão, onde na  cobertura de duas de suas subsidiárias é possível encontrar pessoas produzindo comida. E confesso que fiquei impressionado só com a plantação de batatas doces. E se não bastasse produzir verduras e legumes, essas coberturas verdes ajudam com outro problema nas grandes cidades que são as ilhas de calor (e Tóquio é horrivelmente quente no verão).

Mas aqui no Brasil? O que acontece? Agricultura urbana já está presente há algum tempo por estas bandas. Acontece que poucos conseguem ver isso ou tem oportunidade para tal. Se você ir para algumas cidades da Grande São Paulo, como Suzano, por exemplo, é possível encontrar plantações de verduras no meio urbano. Por outro lado, não estamos vendo esse boom igual aos dos EUA, e pouquíssimas pessoas veem as possibilidades sociais e ambientais da agricultura urbana. No entanto, existe aqueles que pensam que produzir alimentos podem trazer oportunidades para os menos favorecidos, como Hans Dieter Temp, que através da ONG Cidades Sem Fome, promove a agricultura urbana através da capacitação técnica e desenvolvimento de hortas comunitárias, juntamente com a população em situação de vulnerabilidade social. Os benefícios são visíveis não apenas para os envolvidos diretamente com a produção de alimentos, mas também no entorno, onde se desenvolve um comércio que depende da horta, melhora na qualidade da alimentação e na ocupação do espaço público.

Outras experiências interessantes podem ser vista pelo Brasil, como o promovido pela Emater-DF, que trabalha não apenas com hortas comunitárias (onde a produção é tão grande que já chega a ser vendida em feiras), mas também em escolas e no incentivo a horta doméstica, trabalhando com educação ambiental e alimentar. Em Belo Horizonte, a prefeitura, através do Centro de Vivência Agroecológica, tem desenvolvido projetos de agricultura urbana em bairros de baixa renda, beneficiando, diretamente, quase 10 mil pessoas.

E não só de projetos de ONGs e de governos vive a agricultura urbana no Brasil. É o caso de Eliseu Foscarini, que decidiu produzir verduras, usando hidroponia, na cidade gaúcha de Rio Grande, beneficiando-se, principalmente, de um mercado consumidor próximo.

Como podem ver, projetos e idéias não faltam em agricultura urbana. E se agora apresentei experiências em apenas 4 países, é possível encontrar outras fazendas na urbe em todos os continentes, em várias cidades, de Kinshasa, na República Democrática do Congo a Taipei, em Taiwan, passando por Bengalore, na Índia, a Lima, no Peru (essa última cidade é no meio do deserto, mesmo assim, proliferam-se hortas comunitárias e domésticas).  Sim, ela já está aí, e em qualquer lugar.

6. Conclusão: desafios e possibilidades

Desde o surgimentos dos centros urbanos, as pessoas produzem alimentos nas cidades. No entanto, a agricultura urbana tem ganhado cada vez mais visibilidade frente aos desafios das mudanças climáticas e ao aumento dos preços dos alimentos, o que coloca em risco a segurança alimentar daquelas famílias mais pobres.  E devido a essa visibilidade, a prática acaba ganhando tanto pessoas favoráveis, que militam pela produção de alimentos nas cidades, quanto críticos, que exergam vários riscos na agricultura urbana.

Uma das críticas seria sobre a ocupação do solo, bem como uma redução do adensamento populacional, aumentando o consumo de energia para o transporte de pessoas, o que anularia qualquer vantagem na economia no deslocamento de alimentos. No entanto, a maior parte dos casos de agricultura urbana atuais utilizam espaços vagos e/ou degradados das grandes metrópoles. Além disso, muitas áreas podem ser exploradas, sem competição com outros usos, como cobertura de prédios (no Canadá e nos EUA, já está em construção supermercados com estufas nas coberturas para produção de verduras e frutas) ou áreas sob rede de alta tensão. Além disso, o argumento de que não existe economia de energia de transporte devido a diminuição da densidade é meio simplista. Primeiro porque não leva em consideração a utilização de espaços subutilizados. Segundo, porque as vantangens ambientais vão além da economia de energia: destinação mais nobre dos resíduos domésticos, que podem virar fertilizantes; mais áreas verdes nas cidades e redução de ilhas de calor e, finalmente, agricultura urbana é um instrumento poderoso de educação ambiental.

Outro argumento contra é que a agricultura urbana nunca irá substituir a produção de grandes fazendas de monocultura. Primeiro, nunca ouvi dizer de ninguém que a produção de alimentos nas cidades irá substituir, totalmente, a produção no campo. Segundo, o argumento de que apenas a grande agricultura, de monocultura, baseada no uso de fertilizantes e defensivos químicos, irá alimentar a população global, no presente e no futuro, algo que é amplamente vendido, principalmentemente pelas grandes comporações da área de alimentos e química (leia-se Kraft e Monsanto), é derrubado por uma série (grande) de pesquisas que indicam que os pequenos produtores (no campo ou na cidade) podem alimentar TODA a população da terra, utilizando meios alternativos de produção intensiva, levando-se em consideração a quantidade de calorias consumidas (e algumas pesquisas indicam que produtores podem ser até bem mais eficientes do que grandes fazendas, em relação a área utilizada para plantio).

Além disso, se grande a monocultura produz uma quantidade grande de alimentos, ela não tem ajudado na mitigação da fome. Na verdade, atualmente, a agricultura produz o suficiente para alimentar a população do globo, em termos de calorias. No entanto, essa comida não chega no prato de quem mais precisa. Dessa forma, chega-se à conclusão de que o problema da fome não é de produzir mais alimentos (pelo menos, a curto prazo, com o nível de crescimento populacional atual), mas de distribuição  desse comida. Ora, do ponto de vista lógico, a agricultura urbana é a forma mais racional de distribuir alimentos nas cidades. E muitas das experiências acima mostram que, de fato, as pessoas de baixa renda  tem mais possibilida de acesso a gêneros alimentícios de qualidade através de hortas nas cidades.

Outros podem argumentar que o que realmente importa, aquilo que é denso em calorias (como arroz, feijão, trigo, soja, milho e carne) só pode ser produzido, de forma eficiente, pelo grande latifúndio. Mas novamente, isso tem se mostrado falso. A pequena propriedade também se sai muito bem produzindo todos esse gêneros. Um exemplo: o Japão é auto-suficiente em arroz, mesmo que 80% de seu território seja montanhoso e a população rural esteja caindo. E é tudo baseado na pequena propriedade familiar. Outro exemplo, fora da cidade, é a fazenda de Joel Salatin, que em sua propriedade de apenas 100 hectares (o que é pequena propriedade para padrões nos EUA ou no Brasil), cria gado bovino, caprino, suíno, além de aves como frangos e perus, com resultados excelentes, tudo dentro de práticas alternativas e com apenas mão de obra familiar. E mesmo nos exemplos acima, foi possível observar como pequenas propriedades nas cidades podem produzir ovos, frangos, leite e, principalmente, peixes.

Além disso, a grande agricultura de monocultura não leva em consideração diferenças culturais. Arroz, milho e trigo são responsáveis por 60% do consumo calórico do mundo. No entanto, várias povos dependem de outras fontes de carboidratos. Estou falando de cereais como sorgo, trigo sarraceno ou quinoa e tubérculos como mandioca, batata, cará, inhame, etc. E a pequena propriedade agrícola na cidade, por estar perto da fonte consumidora, é a mais sensível a essas diferenças culturais. E ela que vai saber o que plantar para a população, respeitando diferente dietas.

Então agricultura urbana é perfeita? De forma nenhuma. Existe problemas reais, mas de forma nenhuma incontornáveis. Um exemplo seria a contaminação do solo. É evidente que, devido a poluição de nossas cidades e dependendo da escala, a análise de solo é necessário, para evitar possíveis contaminações, principalmente por metais pesados, como mercúrio e chumbo (o que é também um problema quando você tem crianças brincando num jardim), bem como compreender possíveis deficiências de nutrientes no solo para plantas. Outra questão é o uso de águas. Assim como no campo, o seu uso deve ser racional, privilegiando fontes que não seja a mesma para consumo humano.

E finalmente, existe um problema de cunho político-econômico. Como qualquer prática agropecuária, é preciso estabelecer uma política clara de incentivo à  agricultura urbana. Depender de ações de ONGs é um grande limitador. É necessário que o estado, estravés da União, unidades da federação e munícipio pensem seriamente no potencial da agricultura urbana para promover a segurança e soberania alimentar, a saúde da população, a revitalização das cidades e a inclusão social. De nada adianta centenas de bons exemplos algures e nada ser colocado em prática no seu quintal. Sim, existe excelentes projetos em todo o Brasil, patrocidados pelo poder público, mas creio que tudo ainda é muito tímido. O governo federal, através do Ministério do Desenvolvimento Social, investiu 10 milhões de reais para a agricultura urbana e peri-urbana, em parcerias com Estados, municípios e ONGs. É pouco. Não consigo encontrar informações mais atuais, mas até 2009, o Programa Fortalecimento da Agricultura Familiar, que fornece micro-crédito para pequenos produtores, não incluia a produção de alimentos na cidade, e agricultores urbanos tem reividicado sua inclusão, não apenas nesse programa, mas também no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), da Conab, além do recebimento de aposentadoria pela atividade.

Sim, muita coisa já foi feita no Brasil e no mundo em torno da agricultura urbana, mas ainda há muito a ser feito.

Ps. Para que quiser mais informações e se aprofundar no tema, recomendo os seguintes links.

Path of Freedom – A família Dervaes tem desenvolvido a agricultura urbana em seu quintal e o transformou em fonte de renda. Para o patriarca da família, Jules Dervaes, produzir a própria comida é um ato subversivo, uma vez que você vai contra a grande indústria agrícola e alimentícia.

Novella Carpenter, em Oakland, Califórnia, vive em um bairro abandonado pelo poder público e decidiu ocupar um terreno baldio, plantando vegetais, criando abelhas, galinhas, coelhos, patos, perus, cabras e porcos. Sua experiência virou um livro “Farm City” e um blog. O interessante é que ela aproveita muito o que encontra no lixo para alimentar os animais.

City Famer News – Blog recheado de matérias jornalísticas sobre agricultura urbana em todo o planeta. Interessante banco de dados de experiências.

Chappell, Michael J; LaValle, Liliana A. Food Security and Biodiversity: can we have both? An agroecological analysis. Interessante artigo que analisa dezenas de pesquisa sobre agricultura, segurança alimentar e políticas públicas, para saber se é possível alimentar a população e manter a biodiversidade do planeta. Primeiro, eles chegam a conclusão de que é possível, utilizando agricultura alternativa em pequena escala, alimentar o planeta e que esta é a melhor para preservar a biodiversidade.

3 Responses to “Agricultura urbana: seus alimentos produzidos bem perto de você – Final”

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