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Entre tantas modas e hypes quando se trata de comida, uma coisa tem passado ao largo nos cadernos de gastronomia dos jornais e revistas especializadas no Brasil: agricultura urbana. É um tema que tenho visto com certa frequência na mídia lá fora, principalmente nos EUA, onde os índices de obesidade tem sido um problema sério de saúde pública, ao mesmo tempo que muitos vem optando cada vez mais por ingredientes produzidos localmente, seja por questões ambientais ou pelas propriedades organolépticas.

No entanto, a agricultura urbana é muito mais do que a hortinha no quintal da classe média. De fato, apesar de ser um assunto com uma certa visibilidade atualmente, plantar ou criar animais na cidade não é algo novo ou uma obsessão apenas de pessoas preocupadas em conseguir ingredientes mais frescos e saborosos. Na verdade, a agricultura urbana é algo mais complicado, sendo (parte) da solução para problemas complexos como segurança alimentar e problemas de abastecimento de gêneros alimentícios, geração de renda para populações mais pobres e questões relativas a transporte e gastos com energia (bem como suas consequências ambientais).

1. O que é agricultura urbana?

Essencialmente, é agricultura feita dentro da cidade. Ainda não é o suficiente? Vamos a definição de Mougeot:

Agricultura urbana é uma indústria localizada dentro (intra-urbana) ou na periferia (peri-urbana) de uma cidade ou metrópolis, onde se cultiva ou cria, processa e distribui uma diversidade de gêneros alimentícios e não alimentícios, (re)utilizando principalmente recursos humanos e materiais, produtos e serviços encontrados dentro e ao redor dessa área urbana, fornecendo recursos humanos e materiais, produtos e serviços principalmente para esta área urbana.”

Complicado? Abrangente demais? Talvez sim, pois dentro deste conceito inclui-se deste seu vaso com manjericão que você deixa na sacada até sistemas complexos de produção de alimentos nas cidades, o que incluiria a grande indústria alimentícia, com seus grandes centros de processamento. Além disso, a idéia de incluir gêneros não alimentícios também pode provocar certas desconfianças entre alguns. Inclui a indústria do tabaco? Algodão para vestuário? Celulose?

Nesse caso talvez eu prefira a definição da Ruaf Foundation:

Urban agriculture can be defined shortly as the growing of plants and the raising of animals within and around cities.”

Menos amplo, esse conceito, talvez satisfaça a maioria das pessoas, pois não inclui a indústria de processamento. No entanto, nunca existirá um conceito que deixe a contento todo mundo. Sempre haverá alguém querendo incluir ou excluir algum elemento.

No entanto, falta nessa última definição algo que se encontra dentro do conceito de Mougeot: a noção de um sistema integrado. A agricultura urbana deve, principalmente, usar recursos próprios da cidade e seus produtos permenecem, basicamente, na cidade. É ter como ator principal o próprio residente da urbe, e não trazer migrantes rurais (o que não quer dizer excluir o indivíduo que foi atraído pela cidade em busca de oportunidades). Os recursos materias, da mesma forma, devem ser locais: utilizar o lixo urbano como fertilizante ou (re)utilizar a água descartada pela cidade, só para citar dois exemplos.

Isso tudo cria um ciclo dentro do própria ecologia urbana, com impactos diretos (positivos e negativos), com resultados e influências dentro das políticas urbanas locais. Resumindo, é um sistema que se fecha dentro da cidade.  Logicamente, isso não quer dizer isolamento, algo impensável nos dias de hoje. Nenhuma cidade consegue consumir e produzir sem influenciar o seu exterior. Mas quando a produção, os seus meios e a distribuição se resumem dentro do (principalmente) ecosistema urbano, uma competição por recursos (água, terras, energia, etc) e mão de obra poderão ter seus efeitos reduzidos fora da urbe.

Então, vamos pensar a agrícultura urbana como a produção de alimentos dentro do perímetro urbano, sem pensar em escalas, incluindo desde hortas residênciais a empreendimentos agrícolas com fim comerciais, passando por hortas comunitárias (para obtenção de renda e/ou consumo próprio), utilizando recursos, humanos e materiais, da cidade, cujos resultados seja também direcionado internamente.

2. Por que praticar a agricultura urbana?

As razões pelas quais uma cidade deve investir em agricultura urbana passam por várias questões que envolvem problemas ambientais, sócio-econômicas, de saúde pública e, é claro, qualidade gastrômicas de gêneros alimentícios. Evidentemente, todas essas questões são interligadas, mas creio que a palavra chave aqui seria segurança alimentar e crescimento das cidades.

Praticamente todo o crescimento populacional do planeta, até 2030, será concentrado em áreas urbanas em países em desenvolvimento e até lá, 60% da população desses países viverão em cidades.  O prognóstico é de que a pobreza nas grandes cidades aumentará e as dificuldades no acesso a gênero alimentícios poderá se tornar crônico em alguns casos. Segundo a FAO, em alguns países em desenvolvimento, a população urbana pobre chega a gastar até 60% de sua renda com a compra de comida.

Some-se a esse crescimento demográfico, o crescimento da classe média em países emergentes, o que aumenta a procura por ração animal, bem como o aumento da demanda de cereais para combustíveis, frente ao preço crescente do petróleo. Nesse cenário, produzir alimentos baratos para a população urbana será central para qualquer projeto de desenvolvimento de um país.

Do ponto de vista ambiental, a agricultura urbana poderá ajudar a diminuir  problemas relativos ao transporte de alimentos. Se produzidos localmente, onde está o seu maior mercado consumidor, haverá uma diminuição na necessidade de transporte de comida por longas distâncias e consequente consumo de combustíveis fósseis, reduzindo emissões de dióxido de carbono. Além disso, quanto maior a distância percorrida, maior o desperdício de alimentos: até 8% dos alimentos produzidos acontecem durante o transporte e armazenamento.

Ainda pensando nos ganhos ambientais, a agricultura urbana permite um melhor manejo de de detritos, uma vez que o lixo orgânico produzido pelas cidades pode se transformar em adubo, ao mesmo tempo que diminui a demanda por outras fontes de fertilizantes. Lógico que esse ganho só será possível se a sociedade fizer um esforço para melhorar a destinação de detritos urbanos, acompanhado de uma forte política pública de manejo de lixo. ´

A agricultura urbana também pode também economizar água, seja na utilização de águas de reuso, bem com as pluviais. Aliás, produzir alimentos na cidade pode apresentar uma ganho secundário, em relação às chuvas, uma vez que ela pode ajudar a diminuir a impermeabilização do solo, bem como as ilhas de calor.

Outra vantagem é o ganho em relação a qualidade: a população pode ter acesso a alimentos melhores, frescos, mais gostosos e mais nutritivos. Produzidos localmente, vegetais podem ser colhidos no seu pico de maturidade, com mais nutrientes e melhores propriedade organolépticas. Quem nunca se decepcionou ao ir ao supermercado apenas para encontrar bananas e tomates extremamente verdes? Frutas e legumes devem ser colhidos prematuramente quando enfrenta longas distâncias, para suportar melhor a viagem e o longo tempo na estrada. O resultado são alimentos pobres, do ponto de vista nutricional e do sabor. Os ganhos na saúde pública nesse caso, são difíceis de serem mensurados, mas a lógica evidencia também que, quando a população tem acesso a alimentos de qualidade mais baratos, os gastos com as doenças “ocidentais” (câncer, problemas cardíacos, diabetes) podem diminuir. Basta ver os dados sobre a incidência dessas doenças em países onde, tradicionalmente, a dieta é mais saudável e o consumo de vegetais é alto.

Do ponto de vista social, a agricultura urbana pode ser um ferramenta importante de inclusão. Hortas comunitárias podem ajudar a população mais pobre a aumentar a sua renda, seja na venda de gêneros alimentícios, seja com a diminuição de gastos na sua compra.  Nessa questão, a mulher pode ser um elemento central, uma vez que todos os processos envolvidos na agricultura urbana, como cultivo, processamento e venda, podem ser conciliados com tarefas domésticas. E, além da mulher, a agricultura urbana pode proporcionar oportunidades para velhos, imigrantes e portadores de necessidades especiais.

Finalmente, a produção de alimentos na cidade pode ser um instrumento eficaz para recuperação de áreas degradadas e na criação de ambientes mais verdes. Lógico, a agricultura urbana não é uma pílula mágica que resolveria todos os problemas das metrópoles, mas vejo como instrumento essencial para transformar cidades em ambientes mais humanos, num espaço onde a diversidade floreceria, muito diferente da urbe atual.

(continua)

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