Entrega em domicílio:
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Outro dia, estava andando na Avenida Paulista, quando quase fui atropelado por um carrinho de pamonhas. O dono, desesperado, corria da Guarda Metropolitana para salvar o seu ganha pão. Em vão. É difícil correr com um trambolho daquele tamanho. Felizmente, o vendedor conseguiu convencer os agentes a não levar o carrinho e estes ficaram apenas com a mercadoria (desculpe a qualidade da foto, mas estava apenas com o celular na mão

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A mesma sorte não tiveram os vendedores ambulantes que tiveram seus carrinhos apreendidos e estavam na calçada na mesma avenida, mais adiante. Como podem ver na foto abaixo, os carrinhos ainda continham as mercadorias que carregavam no momento da apreensão.

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Para Kassab, o vendedor ambulante é uma ameaça que deve ser combatida.  Mesmo que essa seja sua única forma honesta de trabalhar. Mesmo que essa dê uma cara mais humana à cidade de São Paulo. O nosso prefeito quer, cada vez mais, ruas de higiene cingapuritana, sem vendedores, sem camelôs. Talvez ele pense que dessa forma, a cidade parecerá mais desenvolvida aos olhos dos gringos.

O que aparentemente Kassab não sabe (ou finge não saber) é que as cidades mais dinâmicas, mais interessantes tem uma cultura de comida de rua (inclusive Cingapura), e são estas também as que exibem as mais diversas e interessantes gastronomias. O que seria de Nova Iorque sem seus carrinhos de hot dog, pretzels, gyros e burritos? As cidades japonesas seriam sem graça seus carrinhos de lamen, oden, takoyaki e taiyaki. Fish and chips são marcas registradas das metrópoles britânicas e em qualquer lugar de Paris, você irá encontrar crepes e sanduíches em baguetes. Isso sem contar os doner kebabs em qualquer rua européia e a profusão de banquinhas de comida na Ásia.  E no Brasil, você terá acarajé de primeira nas ruas de Salvador, tacacá em Belém e na maioria das grandes cidades brasileiras você irá encontrar tapioca, pamonha, churrascos, etc.

A comida de rua faz parte de cultura gastronômica de um país. Eliminá-la é tornar a culinária nacional mais pobre. São Paulo sempre se orgulhou de uma certa diversidade culinária (não acho tão diversa assim), mas pelo jeito ela deve ficar restrita aos restaurantes caros e a uma classe média que vai jantar apenas onde tem valet. Acarajé? Apenas em estabelecimentos  que saiu na Vejinha ou no Guia da FAlha de SP. Mas nossa cidade pode mais. Pode criar uma cultura de comida de rua própria. A pamonha e o curau, símbolo de uma cozinha caipira poderia estar presente em cada esquina. E por que não encontramos saltenhas bolivianas por aí? Por que nós, que sempre nos orgulhamos de receber tanta gente de fora, não podemos incorporar tradições de outros estados e países na comida que encontramos na rua? Acredito que, se quisermos ter uma cultura gastronômica respeitável, devemos incluir no cardápio, comida de rua.

Ps. Não que São Paulo não tenha comida de rua, além dos hot dogs, mas a classe média deverá ir a certos centros que não está acostumada a visitar, como o Brás e o Largo 13, em Santo Amaro, onde você poderá encontrar o acarajé que fugiu do centro, açaí e cupuaçu muito mais barato que nas frutarias da moda e tapiocas de verdade, feita com “goma” de mandioca de primeira e requeijão duro amarelo (com sorte, encontra um vendedor com manteiga de garrafa). Mas aparentemente, o “rapa” também está começando a comer solta nesses lugares. Melhor se apressar.

Update: Quem quiser saber mais sobre comida de rua, tem esse artigo no Movimento Slow Food e esse outro no Estadão.  Além disso, existe uma extensa lista de comidas de rua, de vários países,  nesse verbete da Wikipedia (em inglês).

4 Responses to “A política higienista de Kassab está acabando com a comida de rua de SP”

  1. jose ricardo c.moura disse:

    já fui vendedor ambulante, num dia do ano 2.006 tive meu carrinho de sorvete apreendido no parque ecologico de americana,sp só pelo fato de morar do outro lado da divisa em santa bárbara d’oeste,sp,desculpe quem pensa que as prefeituras são a mamãe limpeza pois minha mercadoria derreteu no carrinho,e quando fui retirar a multa foi salgada para levar embora o carrinho percebi o azedume de leite estragado que saiu do mesmo.
    esses covardes se quer tem um deposito compativel para acondicionar as mercadorias que são apreendidas.
    não vote em quem não gosta de cheiro de pobre!
    sampa já foi um bom lugar pra ganhar dinheiro,cara…

  2. Akemi disse:

    Não posso negar que me incomodo com carrinhos de rua, pois fazem pessoas pararem no meio da calçada (que já é um grande problema com seus buracos), enquanto estou apressada. É óbvio que lanches de carrinho de rua também me fazem falta (parei de comer quando vi um homem que vendia churros coçar seus membros e voltar a preparar sem lavar as mãos). Os políticos podem dizer que é para deixar a cidade bonita ou por causa da higiene, mas acredito que também seja pelos impostos não pagos. Sobre higiene, as pessoas sabem da condição em que é preparado um lanche de rua, elas se submetem aos riscos por vontade própria. Estão tirando mais emprego de um país que carece de vagas que não exijam tanta formação acadêmica pra ganhar míseros seiscentos reais.

  3. O Onívoro disse:

    @Daniel Não tem como esse vendedor ter autorização da prefeitura, simplesmente porque só existe regulamentação para vendedor de hot dog. Fora isso, qualquer atividade é ilegal: pamonha, pipoca, tapioca, acarajé (a Associação das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivo e Similares do Estado da Bahia diz ter ouvido a seguinte resposta da Subprefeitura da Sé: “São Paulo é São Paulo, baiana de tabuleiro é coisa de Salvador”).

    E é ingênuo não acreditar que muitas leis sanitárias são baseadas no preconceito contra algo que é considerado “de pobre”.

  4. Daniel disse:

    Só me pergunto se esse vendedor possuía autorização da prefeitura para exercer seu trabalho. Sou totalmente a favor do comércio de “comida de rua”, desde que respeitem as leis que (na maior parte das vezes) são criadas para nos proteger.

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